• Versos
  • Ensaio
  • Ensaio 25 maio 2026 3 min de leitura

    Antes da primeira palavra, há sempre um silêncio que hesita.

    [email protected] 25 de maio de 2026 , , , , , , ,

    Toda página em branco é uma forma de coragem.

    Não a coragem dos heróis — barulhenta, fotogênica, feita para ser contada. Mas a outra. A coragem miúda, quase envergonhada, de quem senta diante do vazio e decide, mais uma vez, tentar dizer alguma coisa.

    Já sentei aqui centenas de vezes. Às vezes de madrugada, quando o mundo inteiro tem a decência de calar e só restam o cursor piscando e eu, olhando um para o outro como dois desconhecidos num elevador que não para no andar certo.

    Outras vezes de tarde, com o sol entrando torto pela janela como se também quisesse espiar o que vai ser escrito.

    Sempre, invariavelmente, com a mesma sensação:

    que talvez não valha a pena. que já foi dito melhor por alguém. que quem vai querer ler isso.

    E sempre, invariavelmente, escrevo assim mesmo.


    Por que este blog existe?

    Não vim aqui para ensinar nada.

    Não tenho fórmula, método, curso online nem produto para vender no final do texto. Não vou te dizer como escrever melhor em dez passos nem como ler cinquenta livros por ano sem esforço.

    Vim porque preciso de um lugar onde as palavras existam pelo que são — não pelo que rendem.

    Vivemos num tempo em que tudo precisa de propósito mensurável. Todo texto quer converter, engajar, ranquear, viralizar. A linguagem virou ferramenta de performance e esquecemos, no caminho, que ela era antes de tudo isso uma forma de presença. Uma maneira de dizer: estive aqui. Senti isso. Existiu.

    Este blog é a minha recusa educada a esse esquecimento.

    Aqui vai haver verso quando o verso for o único jeito. Prosa quando a prosa der conta. Silêncio — representado por espaço em branco na tela — quando nem um nem outro for suficiente.

    Vai ter livro. Muito livro. Não resenha — conversa. Porque há diferença entre quem analisa uma obra e quem foi habitado por ela. Quem saiu de Cem Anos de Solidão exatamente igual a quem entrou não leu o mesmo livro que eu li. E tudo bem — cada um lê o livro que consegue. Mas aqui a gente fala sobre o que os livros fazem com a gente, não sobre o que a gente faz com os livros.


    Um poema para abrir a casa.

    Antes da primeira palavra existe um lugar onde todas as palavras ainda são a mesma.

    Antes do verso existe o momento em que o verso poderia ter sido qualquer outro e escolheu ser este.

    Antes de você ler o texto já esperava por alguém que chegasse exatamente com a sua falta.

    Isso é o que me fascina na linguagem: ela não é de quem escreve. É de quem precisa.


    O que vem depois

    Não sei exatamente o que este blog vai se tornar. E essa incerteza, honestamente, é a parte que mais me interessa.

    Sei que vai haver textos ruins — porque todo escritor que diz que só publica quando está pronto está mentindo ou paralisado. Vai haver textos que eu vou querer apagar um mês depois. Vai haver um ou dois que vão me surpreender ao reler, como encontrar numa gaveta uma carta que você não lembrava que tinha escrito.

    Esses últimos são o motivo.

    Por eles, vale o cursor piscando. Vale a madrugada. Vale o sol entrando torto.

    Vale começar.


    Bem-vindo ao kduborges.com.br. Obrigado por estar aqui desde o primeiro silêncio.

    — KduBorges, maio de 2026.

    EnsaioVERSOS