Silêncio sem pressa.
Era uma vez um silêncio.
Não daqueles que pesam como lápides,
Mas o que flutua, leve,
Como pólen no primeiro sopro da manhã.
O silêncio que habita
Na ponta do lápis suspenso,
O ecrã branco à espera do primeiro lampejo,
O espaço entre dois suspiros
Quando o coração sussurra:
“Agora. ”
É o silêncio-berço,
Onde as histórias se enrolam, desenrolam.
Como sementes em casulos de sonho.
Antes do verbo,
Antes da tinta correr,
Antes da coragem de dizer:
“Era uma vez…”
Há este chão quieto.
Fértil.
Inteiro.
Nele, as palavras futuras dançam.
Ainda invisíveis,
Como sombras de pássaros
Na parede do pensamento.
Ideias são barcos ancorados.
No porto da alma,
Prontos para zarpar.
Rumo ao mar do papel.
Sonhar alto, aqui,
Não é pecado.
É dever.
É direito.
É o ato sagrado.
De quem ouve o mundo.
E ousa traduzi-lo.
Sem pedir licença,
Em versos que doem de verdade,
Em prosas que acendem fogueiras
No frio do esquecimento.
Este silêncio não é vazio.
É promessa.
É o útero da criação.
É o instante em que tudo pode nascer:
Um grito, um verso, um amor,
Uma crônica que se alonga
Como sombra no fim da tarde.
Que este seja o solo
Onde minhas histórias finquem raízes.
Onde os versos respirem,
E a prosa cante.
Onde o silêncio inicial
Sempre dê lugar à voz que me habita.
Que a primeira palavra
Encontre aqui meu lar.
E nunca tenha medo
De começar.
Recomeçar, em cada amanhecer,
